Imagine que alguém foi condenado criminalmente por causar um dano ao meio ambiente — como desmatar ilegalmente uma área de preservação — e a sentença determinou que ele deveria recuperar o local. Como o próprio Ministério Público, em parceria com o município, acabou realizando a recuperação ambiental, a obrigação do condenado foi transformada em uma dívida em dinheiro: ele passaria a dever o valor gasto na recuperação.
A questão que chegou ao STF foi: essa dívida em dinheiro prescreve? Ou seja, depois de certo tempo sem que o credor cobre o valor judicialmente, o devedor poderia alegar que o prazo para cobrar já passou?
O Tribunal Regional Federal havia dito que sim: como virou uma dívida em dinheiro, ela estaria sujeita ao prazo de prescrição normal. O STF, no entanto, discordou completamente.
A Suprema Corte, por unanimidade, fixou no Tema 1194 que obrigações relacionadas à reparação de danos ambientais são imprescritíveis — ou seja, não existe prazo para cobrá-las —, independentemente de quanto tempo tenha passado e independentemente de a obrigação ter sido transformada em dinheiro. Isso vale tanto para iniciar a cobrança judicial quanto para situações em que a execução já começou, mas ficou parada por muito tempo (o que se chama de 'prescrição intercorrente').
A lógica é simples: o meio ambiente é um bem de todos, inclusive das gerações futuras, e a Constituição impõe o dever de repará-lo quando danificado. Esse dever não some com o passar do tempo. Transformar a obrigação em dinheiro não muda sua origem: ela continua sendo a consequência de um dano ambiental, e por isso mantém seu caráter imprescritível.
Na prática, isso significa que quem causou dano ao meio ambiente e foi condenado a repará-lo — ou a pagar pelo custo da reparação — não pode se beneficiar da demora do processo judicial para escapar da obrigação. A cobrança pode ocorrer a qualquer momento, sem limitação de prazo. Para o Poder Público e para entidades que defendem o meio ambiente, isso é uma garantia de que o ressarcimento ambiental sempre poderá ser perseguido.